sábado, abril 20, 2013

Uma tenaz narrativa


Há boas razões para preocupações com o espectro de crise política que paira. Não tanto por, como é sugerido pelo Governo – no que não passa de um álibi para a sua própria incapacidade –, poder precipitar um segundo resgate que, ainda que com outro nome, é inevitável, mas por o debate político mostrar que estamos presos, para utilizar um modismo, entre duas narrativas desligadas da realidade da crise que enfrentamos e que, por isso, não oferecem soluções viáveis.
Neste sentido, o debate da moção de censura foi dramático, no essencial, pelo seu efeito de revelação. Enquanto a maioria, pela voz de Vítor Gaspar, assenta a sua estratégia numa leitura das razões por que Portugal foi resgatado que ignora aspectos determinantes; o PS, por se ter autoinibido de falar do passado, é, hoje, incapaz de se demarcar da interpretação da crise feita pelo Governo, logo de oferecer um caminho alternativo.
Não por acaso, durante o debate, as intervenções mais programáticas ignoraram as condições da nossa participação no euro e a insustentabilidade dos níveis atuais de endividamento. Um discurso político que secundariza estas dimensões não tem, literalmente, futuro histórico.
Gaspar expôs com particular clareza o que move a sua estratégia. Há dois anos, Portugal precisou de ser resgatado por acumular um conjunto de défices estruturais (identificados por Olivier Blanchard num conhecido artigo de 2006), aos quais os Governos não responderam desde a adesão ao euro (a tese da “década perdida”), e que se tornaram particularmente visíveis quando em 2009 foi adotada uma estratégia orçamental “despesista”. No fundo, a crise foi virtuosa, pois, ao expor as nossas debilidades, criou uma oportunidade única para as resolver.
Este argumento tem vários problemas. À cabeça, o facto da estratégia revolucionária em curso estar a ser um descalabro económico, orçamental e também da dívida. Não menos relevante, ignora os constrangimentos objectivos que a moeda única colocou à economia portuguesa – a razão para os crescimentos medíocres desde a adesão à UEM – e, particularmente assustador, passa ao lado da crise da dívida soberana e, inclusivamente, da leitura que Blanchard, agora economista-chefe do FMI, hoje faz.
Que o Governo ensaie este discurso como tentativa espúria de ocultar os seus falhanços não surpreende. O que surpreende é a timidez do PS perante esta narrativa: não contraria a tese da “década perdida”, incorpora o argumento do despesismo – que, aliás, não está refletido no défice de 2009, causado por um desvio na receita – e abdica de fazer uma reflexão retrospectiva em torno das armadilhas da moeda única.
Estamos perante um verdadeiro pecado original: o PS ou tem algum rasgo estratégico ou não será capaz de articular uma alternativa política com futuro. Por mais medidas importantes que apresente (v.g., reembolso dos lucros do BCE com a compra de dívida soberana), se não romper com esta tenaz narrativa, estará condenado a ter como programa, num contexto radicalmente diferente do de 2005, uma versão light do choque tecnológico.
publicado no Expresso de 6 de Abril